"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade.
Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma
mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que
necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum.
Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar
seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens
com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da
vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa
escrever como homem".

 
Lya Luft e Hélio Pellegrino se encontraram num congresso de escritores em São Paulo em 1985...até entao conheciam-se apenas de nome e por cartas.
Ambos maduros, ela inclusive casada.

Uma mulher disposta a começar tudo de novo. Um homem "em sua melhor fase; fascinado pelo mistério: de Deus, da vida, das pessoas, da natureza". Dois anos e três meses após, a morte levou Hélio a 23 de março de 1988. Coração, o fatal lado esquerdo. E foi pensando nela que Lya escreveu esse poema. Para reviver um grande amor entre dois pássaros "varados em pleno vôo".

O texto abaixo foi extraído do livro O Lado Fatal, Editora Siciliano - São Paulo, 1988. 

 
 

Quando meu amado morreu, não pude acreditar:
andei pelo quarto sozinha repetindo baixo:
"Não acredito, não acredito."
Beijei sua boca ainda morna,
acarinhei seu cabelo crespo,
tirei sua pesada aliança de prata com meu nome
e botei no dedo.
Ficou larga demais, mas mesmo assim eu uso.
Muita gente veio e se foi.
Olharam, me abraçaram, choraram,
todos com ar de incrédula orfandade.
Aquele de quem hoje falam e escrevem
(ou aos poucos vão-se esquecendo)
é muito menos do que este, deitado em meu coração,
meu amante e meu menino ainda.

II

Deus
(ou foi a Morte?)
golpeou com sua pesada foice
o coração do meu amado
(não se vê a ferida, mas rasgou o meu também).
Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado,
disse bem alto meu nome no quarto de hospital,
e partiu.
Quando se foram também os médicos e sua máquinas inúteis,
ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?)
o meu amado e eu.
Enterrei o rosto na curva do seu ombro
como sempre fazia,
disse as palavras de amor que costumávamos trocar.
O silêncio dele era absoluto: seu coração emudecido
e o meu, varados por essa dourada foice.
Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso e triste
que não estancará jamais.

III

Nesta minha peculiar viuvez
sem atestados nem documentos
apenas com duas alianças de pesada prata
e no peito um coração de chumbo,
instalo ao meu redor objetos que foram dele:
a escova de dentes junto da minha na pia,
o creme de barbear entre os meus perfumes,
e com minhas roupas nos cabides
a camisa dele de que eu mais gostava.
(Na gaveta, vidros com os remédios
que o preservaram para o nosso breve tempo.)
Finjo a minha vida como ele finge sua morte.

IV

O meu amado tinha coisas de menino:
dormia abraçado a mim feito criança,
gostava de doce e de ganhar camisas novas de presente.
Usava a água-de-colônia que lhe dei e ria:
"Pareço uma Paulina Bonaparte."
Olhava-me tão agradecido ao menor cuidado
como limpar seus óculos ou trazer-lhe água,
que era como se nunca tivesse tido infância.
(Gostava de rir, embora chorasse algumas vezes a meu lado.)
Abria as portas grandes da varanda de nosso quarto
sobre as florestas da Gávea, e de tudo se admirava:
"Espantoso! Qual o sentido disso?"
Quando eu não estava em casa, ficava aflito:
telefonava para conferir se eu voltara ao nosso cotidiano:
"Sabendo que você está aí, meu mundo fica em ordem."
O meu amado tinha coisas de menino:
mas seus olhos eram sábios
de entenderem quase toda a miséria deste mundo.

V

Passeávamos pelo Jardim Botânico
seguidamente, sob as altas palmeiras,
vendo flores e esquilos,
discutindo o cotidiano e o seu mistério.
Da última vez, paramos abraçados
diante das vitórias-régias em flor.
Trocamos confidências de nossos corações atormentados,
dissemos ternuras.
De repente pus-me a chorar no ombro dele,
as pessoas em torno olhando consternadas.
Chorava sem saber por quê.
Hoje, compreendo:
na sombra, a Morte erguia o seu braço,
mas nós não sabíamos ainda.

VI

O meu amado tinha indignações enormes:
andava de um lado para outro em minha frente:
não se conformava com os conformados, os corruptos,
os medíocres e os vendidos deste mundo.
Não se conformava com a miséria, a dominação, o desvalimento.
Não se conformava também quando não o entendiam.
Passava as mãos pelo cabelo grisalho
e ardia como um jovem de dezoito anos na sua ira:
"Tenho vocação é de terrorista."
(Eu escutava, com medo de que ele saltasse da varanda
levado pelo vendaval de seu furor de justo.)
Depois ele fechava as portas de vidro sobre a noite quente,
me pegava pela mão, dizia:
"Vamos dormir."
E então era todo mel e ternura.

VII

Insensato eu estar aqui, e viva.
O rosto dele me contempla
vincado e triste no retrato sobre minha mesa;
em outros, sorri para mim, apaixonado e feliz.
Insensato, isso de sobreviver:
mas cá estou, na aparência inteira.
Vou à janela esperando que ele apareça
e me acene com aquele seu gesto largo e generoso,
que ao acordar esteja a meu lado
e que ao telefone seja sempre a sua voz.
Sei e não sei que tudo isso é impossível,
que a morte é um abismo sem pontes
(ao menos por algum tempo.)
Sobrevivo, mas pela insensatez.

VIII

O meu amado tinha tantas manias:
perdia canetas, lápis, chaves.
Houve um livro que comprou três vezes em um mês.
depois encontramos todos e mais um sob velhos jornais.
Mandamos fazer uma estante nova para organizar seus livros:
mas, quando ele se foi, mais que livros havia ali de novo jornais.
Nunca sabia bem por que os guardara. Eram parte do seu ninho,
como nossos lençóis e os móveis da sala.
Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever:
vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me distrair,
dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos do dia.
Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado:
"Você hoje está numa melancolia profunda?"
Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever
um bilhetinho:
"Hélio Pellegrino ama Lya Luft."
Nunca tivemos mais que vinte anos.

IX

Outro dia sentei-me na beira da cama para aparar as unhas
que sempre trago bem rentes.
(Minhas duas mãos pareciam tão solitárias.)
Dei-me conta de que nunca mais ele sentará a meu lado dizendo:
"Gosto de ver você fazendo essas coisas bem cotidianas."
Era a primeira vez que cuidava de minhas mãos
depois que ele se fora.
Então deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas,
sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos
ele não voltaria mais.
Quando as lágrimas secaram, comecei a entender
que ele estará comigo o tempo todo,
luz no centro da minha vida destroçada,
sabendo de mim tudo o que hoje não sei dele.

X

O meu amado tinha a fadiga de muitos séculos.
Deitava-se no sofá, cabeça no meu colo:
"Com você encontrei a paz."
Mas estava cansado. Tinha saudade de mais paz
do que lhe poderia dar todo o meu amor sem limites.
Dizia:
"Hoje estou triste como o diabo, e sem motivo."
O motivo era ser esta vida um exílio
e sua alma uma chama
que só se aplacaria em Deus.
Para isso foi preciso que partisse.

XI

Tudo parecia rotineiro:
lembrei até de levar nossas escovas de dentes
e o livro que estávamos lendo juntos.
Tudo cotidiano:
naquela manhã tínhamos comentado
na mesa do café as notícias do jornal.
Fomos para o lugar onde você morreria
menos de dois dias depois,
e era uma manhã de sol claro no Rio de Janeiro,
eu no banco de trás, inclinada para diante,
acariciando seu rosto.
(Até a barba você tinha feito.)
Tudo absolutamente cotidiano:
você falando e rindo, disfarçando um mal-estar menor.
Procuro saber, mas não descubro
se no meu coração se agachava
o pressentimento de que tudo estaria acabado
em poucas horas.
(Essa é a grande traição de algumas mortes.)

XII

O meu amado era mineiro: mas dos visionários.
Levava-me à sua terra, onde, ébrios de tanta luz
e tanto céu, percorríamos a sua juventude:
eu integrada nessa vida inteira.
Ouro Preto revisitada muitas vezes,
a Serra da Piedade onde escutávamos a paisagem vasta.
Belo Horizonte, e todas as esquinas
de antigos arodres: seu croação se abria
em confissões noite a dentro.
O meu amado era de Minas. Da banda dos visionários:
capaz de morrer sem abdicar dos sonhos

XIII

Pensei que estávamos apenas no começo:
a casa mal-e-mal nos alicerces.
Mas provavelmente estava concluída
e eu não sabia.
Tínhamos erguido em nossos poucos anos
as paredes necessárias;
o telhado se inclinava ao jeito certo,
e havia vidraças nas janelas.
(Éramos felizes ali dentro
mesmo com as tempestades de fora.)
Tudo se construiu num lapso tão curto:
até a porta de entrada, por onde ele saiu
casualmente como quem vai comprar jornal.
A porta está apenas encostada
embora pareça alta, dura, intransponível:
do lado de lá, o meu amor vê as maravilhas
que tanto nos intrigavam nesta vida.

XIV

Quando meu pai morreu minha mãe tinha cinqüenta anos
e senti muita pena dela.
Quando meu amado morreu tenho quarenta e nove
e custa-me acreditar no que aconteceu.
Sei que esses anos existiram, breves e fulgurantes,
varrendo minha vida e a dele de ansiedade e revelações.
Sobrevivo para que a fonte das memórias
o mantenha aqui, comigo.

XV

O meu amado gostava de falar:
era como se precisasse muito ser compreendido,
e sempre me dizia isso.
Nunca o vi em palanques e comícios
nem o conheci na juventude.
Mas para mim falava, recitava, argumentava
horas e horas sem se cansar:
"Falo com você coisas que nunca pensei dizer a ninguém."
Eu me apaziguava para ouvi-lo:
os terrores da infância, os tormentos e entusiasmos da mocidade,
As maduras paixões, as decepções incuráveis,
as preocupações que cada dia mais lhe vincavam o rosto.
(Às vezes, quando ele dormia, eu espreitava:
agarrando minha mão, o meu amado tinha
o rosto de um menino solitário.)

XVI

Não digam que isso passa,
não digam que a vida continua,
que o tempo ajuda,
que afinal tenho filhos e amigos
e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
mas morreu bem (quem não quereria uma morte como essa?)
Não digam que tenho livros a escrever
e viagens a realizar.
Não digam nada.
Vejo bem que o sol continua nascendo
nesta cidade de Porto Alegre
onde vim lamber minha ferida escancarada.
Mas não me consolem:
da minha dor sei eu.

XVII


O meu amado era um homem impaciente:
brigava no trânsito, detestava filas,
batia portas com força quando perdia suas coisas.
Certa vez rachou um telefone que não dava linha;
reclamava de ir ao dentista.
Mas quando um dia chorei porque ele falava aos gritos,
mandou-me rosas vermelhas que espalhei pela casa toda.
Ainda hoje elas florescem para onde quer que eu me volte.

XVIII

Tanto escrevi sobre a morte
em livros e poemas nesses anos:
sempre achei que a entendia um pouco.
Mas agora que ela me dilacerou a vida,
me rasgou o peito,
me levou o amado,
sinto que mal começo a compreender
sua mensagem:
tirando-o de mim, a morte o devolve
para que seja mais meu.
Dentro de mim um quebra-cabeças, e nele o meu amado.
Nem Deus o tirará daqui.

XIX


O meu amado morreu:
viver sem ele, como dói.
Não tivemos filhos juntos,
nosso passado foi tão breve que era sempre presente.
Um dia ele mandou fazer um par de alianças
de pesada prata, parecendo antigas;
gravou apenas nossos nomes, sem data, e disse:
"Somos um só desde sempre."
Ainda não acreditei em sua morte,
e talvez isso me salve por enquanto.
Levantar-me da cama cada dia é um ato heróico,
acender o cigarro, atender o telefone, tomar café.
Mas faço tudo isso:
falo, ando, recebo visitas.
Compro móveis para a casa onde moro sem ele,
imaginando: será que ele vai gostar?
De algum secreto lugar me vem a força
para erguer a xícara, acender o cigarro,
até sorrir quando alguém me diz:
"Você hoje está com a cara ótima",
quando penso se não doeria menos
jogar-me de um décimo-primeiro andar.

XX

Sento-me na cadeira que foi dele,
onde anos a fio escreveu cartas, poemas, artigos de jornal,
bilhetes que me deixava pela casa
(e a toda hora me chamava para eu ver o que fazia).
Nela escrevo também esses poemas de amor e morte
que falam dele agora.
Na frente do rosto afivelei a máscara
para que os outros me suportem:
atrás dela, o redemoinho
do sangue da solidão borbulha sem parar.
Minha dor ferve em mim:
todo o resto é mentira.

XXI

Amado meu, agora morto,
postado do lado de lá da fronteira que nos seduzia,
mudo e quedo como se não existisses:
eu sei que existes,
intensamente, ardentemente existes,
feito e desfeito no fogo de um amor maior que o nosso
mas que nos abrange.
Amado meu, morto agora e para sempre vivo,
hás de ter ainda o intenso olhar que me entendia,
as curvas amorosas da boca que chamou meu nome,
as belas, inquietas mãos que ardiam nas minhas.
Ajuda-me agora, silencioso que estás,
a suportar a sobrevida
e a decifrar esse alto, intransponível muro que me cerca.

XXII


Quando meu amado morreu
abriu-se em meu peito esse buraco:
através dele arrancaram-me o coração
e colocaram o estranho maquinismo
que me mantém viva:
cheio de lâminas e pontas.
(A cada pulsação ele me corta
e me impele a viver.)

XXIII

Nunca tivemos filhos juntos, e ele reclamava:
"Nosso amor merecia um filho ao menos."
Nosso filho é a minha dor de hoje,
é a fulguração que nos deixava tontos,
é o novelo da memória que teço e reteço
nas minhas insônias.
Nosso filho é o meu tempo de agora
para falar do meu amado:
da sua força e sua fragilidade,
da sua indignação e seus prantos,
da sua necessidade de ser amado e aceito
como finalmente deve estar sendo, por inteiro,
na realização de todos os seus vastos desejos.

XXIV

Os amigos dizem que preciso reagir,
e reajo.
Não me matei ainda, e provavelmente
vou resistir.
Só pela teimosia dos que não acreditam,
reajo;
penteio os cabelos, passo pó no rosto,
pois os amigos dizem que a vida continua.
Eu, tudo o que queria era trocar
o tempo que me resta e pesa tanto
por um instante em qu epudéssemos repetir
(embora não seja preciso, porque ele e eu sabemos)
os momentos de amor, e so silêncios
de nosso mútuo e pleno entendimento.

XXV

O meu amado enveredou por sua morte
como quem vai a um encontro de amor:
impaciente.
Deixou-me este coração golpeado,
esta derrota.
Mas também ficou a claridade desses anos
e a sensação de que ele finalmente
vive o encontro de amor
que toda a devoção de minha vida não lhe poderia dar.
(Um dia, celebraremos juntos.)

XXVI

O meu amado morreu belo como um guerreiro,
mas eu não estava preparada.
Morreu iluminado, sem dor, pronunciando meu nome,
mas eu não estava preparada.
O meu amado morreu a sua morte toda,
a que vinha morrendo desde o nascimento
como todos nós.
Morreu nos anos de ternura e relativa paz,
morreu pleno de paixão e deixou-me
o legado de sua indignação.
Morreu como todos quereriam morrer:
mas eu não estou preparada.

XXVII


Hoje,
três meses e dois dias depois de sua morte,
levantei-me da mesa onde escrevia,
mudei de lugar os móveis e a máquina.
Não era para ter melhor luz ou mais sossego:
era apenas para ver o pôr-do-sol.
(Foi o primeiro sinal de que ainda estou viva.)

XXVIII

Que os deuses me ajudem - essa vez ao menos! - a
construir a minha utopia. (H. P.)
Os deuses, sim, nos ajudaram:
construímos, ainda que esfolando o coração e as mãos,
a tua e a minha utopia.
A mesma morte que amputou tua vida
e minha alegria de existir,
deve estar te revelando os segredos
que tanto nos fascinavam.
Foi breve o tempo, mas foi de amor.
Por isso, também a mim,
"Deus não me deve nada."

XXIX

O meu amado era velho e moço
ríspido e cândido
apaixonado e solitário
e compreendeu minha atormentada alma como ninguém.
Achava graça em mim algumas vezes.
Mas quando eu lhe dizia sentir medo sem razão
no meio da noite
(com certeza antecipando a separação que sobrevinha)
ele me abraçava calado e sombrio, dizendo:
"É para se ter medo mesmo."
Não pronunciávamos então a palavra temida
que talvez nos espreitasse nos cantos do quarto.
Só nessas ocasiões ele não me explicava nada.

XXX

Se me tivessem amputado braços e pernas
e furado o coração com frias facas
e cegado meus olhos com ganchos
e esfolado a minha pele como a de um podre bicho
- nada doeria mais
que te saber morto, amado meu,
depositado
nesse irremediável poço de silêncio de onde não respondes.
(A não ser em sonho, quando me olhas
e tuas mãos tocam as minhas espalmadas,
abertas, feridas, vazias.)

XXXI

O meu amado era também um homem paciente:
quando estava com ele, chorei muito
com saudade dos filhos, da casa, da cidade
onde vivera toda a vida.
Ele me ouvia, consolava.
Hoje, não tenho família nem amigos nem lugar.
Perambulo entre uma cidade e outra em busca do que não terei.
(Pode-se reconstruir uma vida estilhaçada?)
Cada palavra dele, cada gesto,
cada uma de suas brincadeiras
ou de nossos comuns deslumbramentos
terá de ser uma peça desse enigma
que ficarei tentando resolver.

XXXII

O meu amado morreu:
preciso viver sua morte até o fim.
Morreu sem que se instalasse entre nós cansaço e banalidade.
Talvez tenha morrido na medida certa
para nada se desgastar.
Dele me vem a dor, mas também a ternura,
a claridade que me permite ver
em todos os rostos o seu rosto
em todos os vultos o seu vulto
e ouvir em todos os silêncios
o seu inesperado riso de criança.

XXXIII


Fazemos muita retórica sobre Deus,
a Morte e as eternidades.
Hoje me escondo sob as aparências:
a roupa está correta, o cabelo sem desalinho,
nunca fui de grandes luxos.
Todo mundo acha que estou indo muito bem,
tendo em vista a brutalidade de tudo.
Mas eu sou antes como um desses bichos
a que arrancaram as entranhas e meteram
estopa de ilusão corpo adentro
para que pareçam vivos e até alertas.
(E sem acreditar em retórica nenhuma.)

XXXIV


O meu amor tinha gestos inesperados.
Na mesa do jantar, comendo quieto,
de repente dizia:
"Tenho uma pena enorme de você."
Ou então:
"Você é a pessoa mais doida que conheço."
E pegava minha mão por cima da toalha
com aquela doçura tão dele.
Sem saber que logo morreria,
há de ter-me preparado para esta solidão.
Por isso preciso aprendê-la, por mais que custe.

XXXV

"Hélio Pellegrino deve estar fazendo comício no céu,
andando de braço dado com Freud e discutindo com Marx",
disse-me uma amiga.
(Eu sinto-o aninhado
frágil e brilhante
sozinho e amigo
nisto que me sobrou de coração.)

XXXVI

A morte, velha amiga,
me sorri:
agora tem do seu lado
aquele que me foi tudo nesta vida.
Tem mãos macias a velha senhora,
traiçoeiras e leves
mas reveladoras:
porque um dia me recolherá também
para debaixo do seu manto
e haverá esplendor.

XXXVII

O meu amado achava-se desimportante,
muitas vezes solitário e mal compreendido,
embora tantos o amassem muito
e ele a todos devolvesse amor.
"Se eu te ajudar a crescer
isso tonará minha vida importante
e lhe dará sentido enfim",
escreveu-me numa carta.
(Terei crescido o suficiente
para ele poder partir?)

XXXVIII

Estranha a vida:
fico tangendo meus dias
como um rebanho de ovelhas desordenadas
nessa triste e fria cidade de Porto Alegre
onde ele gostava de estar
olhando o pôr-de-sol e vendo amigos.
"Morrer é tomar um porre de não-desejo"
dizia o meu amado, que era um homem desejoso:
desejava a vida, desejava a morte, desejava a justiça,
desejava a eternidade e a paz.
Estranha a vida:
quando releio uma frase sua,
"viver é modular a morte",
em sangue e dor preparo a minha ida.

XXXIX

O meu amado, das muitas coisas que sabia,
ensinou-me algumas:
conheço mais a mim e aos outros,
aprendi a amar melhor a todos
e entendi que a morte
pode ser também um sonho.
Mas não se iludam:
esta que agora escreve,
fuma, dirige seu carro
e tantas vezes quer morrer,
não é a de antes:
paixão e morte me derrubaram
e caminham sobre mim com suas grandes patas
quando ninguém percebe.

XL

Estranho também esse amor,
com hora marcada para a mutilação
da morte, o minuto acertado,
e o fim consultando o relógio
para nos golpear.
Estranho esse amor de agora,
com meu amado atrás de um espelho baço
onde às vezes penso divisar seu vulto
como num aquário.
Enrolado em silêncio,
mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.

XLI

Ainda não acreditei na tua morte.
Visito tua sepultura ao sol do Rio de Janeiro,
Onde fomos felizes e infelizes e nos amamos tanto.
Mas não acredito.
Ponho a mão na pedra que esconde
alguma coisa que restou de ti;
mesmo assim não acredito.
Deixo flores na laje,
saio a andar entre sepulturas anônimas e conhecidas,
sozinha ao sol da cidade onde já não moro.
Imagino que deves Ter morrido de verdade
ou não me deixarias andar ali tão só.
(Quando acreditar em tua morte inteiramente,
o que fará meu coração desnorteado?)

XLII

O meu amado tinha muitos amigos.
Alguns, especiais, gostava de trazer em casa.
Pedia-me um jantar diferente
para um, dois ou mesmo dez.
Era a homenagem que fazia aos que amava.
O vinho revelava outro sabor ao lado dele,
As palavras revestiam em sua boca um significado
singular:
dizia termos que ninguém usava
e nele esplendiam.
Eu me calava para ouvir
e ver a alegria da amizade inchar seu coração.
(Sua mão procurava a minha no sofá
para dizer que em nenhum momento
me esquecia.)

XLIII

Não falem alto comigo:
andem sempre na ponta dos pés.
Principalmente, não me toquem.
Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto,
Se nem entendo as perguntas
com a rapidez de antigamente,
se pareço fatigada
e sem graça como nunca fui.
Façam silêncio ao meu redor.
Não me interessa nada o cotidiano nem o místico.
Não quero discutir os preços do mercado
nem os grandes mistérios da eternidade.
Levo meu amado no peito
como quem carrega nos braços para sempre
uma criança morta.

XLIV ( ÚLTIMO )

Amado meu, que tanto ensinaste
de mim a mim mesma, e do mundo
a quem o conhecia pouco:
quando se desfizer escura a noite desta perda,
quro enxergar pelos teus olhos,
amar através do teu amor
as coisas que me restaram.
Amado meu, vivo em mim para sempre,
apesar da ruga a mais
e do olhar mais triste,
devo-te isto:
voltar a amar a vida
como agora amas, inteiramente,
a tua morte.

 

 

 

 

 

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